quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Como nasceu este desafio?

Ao longo de anos de trabalho com desafios de escrita, surgiu-me esta ideia, ao descobrir que muito do que escrevemos e do que queremos esconder, se revela ao aplicar contrários nas palavras-chave.
No fundo, esta é também uma excelente ferramenta para aperfeiçoar os textos, que pode ser usada quando escrevemos uma frase banal, muito batida, mas que se encaixaria bem no momento. Trocando algumas palavras por contrários, nascem não só ideias que, de outra forma, não apareceriam, como trazem aquela beleza à escrita das palavras inesperadas.

Isto funciona com qualquer idade, o que também é absolutamente extraordinário. Um dia, com alunos do 3.º ano do 1.º ciclo, debatiam-se com um final demasiado batido: «e foram felizes para sempre». Expliquei-lhes a ideia, ficando o conto colectivo com o final: «foram infelizes num nunca muito pequeno». Acharam o máximo, e a história prestava-se a isso, já que uma das personagens secundárias ameaçara os heróis de que seriam sempre infelizes.

Contudo, algo acontece ao mesmo tempo, numa revelação surpreendente para quem faz esta técnica: as ideias ficam muito mais fortes, raramente dizendo o contrário, mostrando o fundo emocional com que foi escrito. Não sei explicar-vos a razão, um dia chegaremos a essa conclusão, mas a verdade é que um exercício simples pode fazer muito por nós. Não aperfeiçoa apenas o «como escrevemos», mas sim «como nos sentimos».

Numa outra ocasião, numa turma de 9.º ano, havia muitas palavras e estávamos a fazer o exercício para experimentar. Os contrários (3 ou 4 por palavra) ficaram escritos no quadro para que refizessem o texto, deixando que este lhes falasse, em vez de obrigá-lo a dizer o que pensávamos que ali estaria.
Uma das raparigas da turma quis ler e pôs-se de pé. As palavras de desprezo dos bullies da turma quase lhe tiraram a coragem, mas a rapariga prosseguiu. Com a voz a tremer, leu o 1.º exemplo e deixou-nos sem fôlego - era um retrato do bullying emocional a que estava sujeita na turma. Instalou-se um silêncio quase doloroso. Quando quis ler a segunda versão, as lágrimas começaram a rolar, mas quis continuar. Estava tudo dito: a dor, o desânimo, a auto-estima ameaçada, a solidão. Quando terminou, a turma permaneceu estupefacta: ninguém sabia como reagir.
Os bullies fizeram, então, o gesto que ainda hoje me comove ao recordar esta aula: levantaram-se, foram até junto da rapariga e abraçaram-na, enquanto lhe pediam desculpa. Segundo o professor de Português da turma, o problema fora resolvido com aquelas palavras.

Continuemos, pois, a experimentar. Acredito que iremos encontrar caminhos espantosos e espantados!